Do sul do Brasil ao coração do México, agricultores/as, organizações sociais e pesquisadores/as vêm desenvolvendo conjuntamente uma metodologia para monitorar e avaliar as contribuições da agricultura agroecológica para a conservação da biodiversidade, adaptação e mitigação das mudanças climáticas, para a soberania alimentar e para o bem-estar de famílias e comunidades.
Trata-se do projeto “Agroecologia na América Latina: construindo caminhos”, que está em seu quarto ano de execução e conta com a participação de mais de 250 famílias agricultoras e 10 organizações sociais do Brasil, Paraguai, Equador, Colômbia, El Salvador, Guatemala e México.
Além de registrarem periodicamente informações referentes a cultivos e colheitas, anualmente as famílias participantes respondem a um questionário qualitativo. Uma espécie de diagnóstico da Agroecologia que abarca questões sobre o perfil dessas famílias e suas unidades produtivas, o uso de técnicas de manejo sustentável, aspectos relacionados ao processamento e comercialização da produção, bem como os desafios da transição agroecológica e as relações de gênero e geração envolvidas. Até setembro de 2025, o projeto chegará a 450 famílias agricultoras.
Tarcísio Mattos, agricultor de Santa Catarina certificado pela Rede Ecovida de Agroecologia, participa do projeto desde o seu início e, em abril deste ano, respondeu o questionário pelo terceiro ano consecutivo. “Participar deste projeto é super importante porque eu também quero saber o que acontece na agricultura agroecológica. Eu aceitei participar e participo de bom grado para poder ser uma fonte de informação também, tanto para mim, para eu entender o que está acontecendo ao nosso redor, quanto pra quem também precisa e quer poder produzir. Para que sejam aplicadas políticas públicas, pra gente saber que caminho a gente tem que tomar”, avalia Tarcísio.
No Brasil, o projeto é conduzido por três organizações: Cepagro e CETAP, que atuam com agricultores/as da Rede Ecovida de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul respectivamente, e Movimento Mecenas da Vida, que atua junto à Rede de Agroecologia Povos da Mata, no Sul da Bahia.
Já no Paraguai, quem conduz o projeto é a Asociación de Productores Orgánicos (APRO), organização com 25 anos de atuação. Fernando Melga, técnico de campo da APRO, conta que os poucos dados que se tem sobre a Agroecologia no país são os dados referentes à certificação orgânica, mas além de dispersos, eles não são suficientes para uma compreensão abrangente da Agroecologia.
“É muito valioso e algo inédito aqui no Paraguai contar com informações relativas aos âmbitos social, econômico e ambiental da Agroecologia. Queremos utilizar estas informações para a elaboração de projetos, sobretudo direcionados à questão da juventude, de gênero, da comercialização e para enfrentar os desafios da transição agroecológica”.
Em El Salvador, o projeto é executado pela Fundesyram, organização com 32 anos de experiência com atuação a nível nacional. Seu Diretor, Roberto Rodríguez Sandoval, afirma que a equipe da organização está convencida pela experiência de que “uma fazenda agroecológica diversificada permite ao produtor gerar certa renda e melhorar sua alimentação na maior parte do ano”. Mas que, para além da observação, as evidências geradas a partir do projecto poderão ajudar “a motivar cada produtor a seguir diversificando suas propriedades e incentivar aqueles que ainda não iniciaram este processo [de transição agroecológica], além de sensibilizar os consumidores. E da mesma forma, enfatizar a importância dos papéis de gênero tanto no trabalho agrícola quanto doméstico”.
Organizações de base pautando a pesquisa em Agroecologia
Um diferencial deste projeto é que ele possibilita às organizações de base, que estão em contato direto com famílias agricultoras, a conduzir com autonomia uma pesquisa científica, definindo sua abordagem. Isso se dá graças à colaboração do grupo de pesquisa conduzido pela Dra. Hannah Wittman, pesquisadora e professora do Centro de Sistemas Alimentares Sustentáveis da Universidade de British Columbia (UBC), no Canadá, que tem facilitado este processo.
Erika Sagae, coordenadora do projeto e parte da equipe do Cepagro, explica que isso é importante porque essa experiência, além de inovadora, é um aprendizado para as organizações “que estão acostumadas a fazer trabalho de base, mas não pesquisa. E justamente por estarmos em contato com os agricultores e compormos redes de agroecologia, podemos dizer que é uma pesquisa de base popular e participativa. Não estamos apenas respondendo às perguntas formuladas dentro da Universidade, mas definindo juntos quais as informações que queremos obter e a partir disso, elaborando questionários e aperfeiçoando ferramentas de coleta de dados”.
Além disso, as 10 organizações que compõem o Comitê Gestor do projeto têm atuação histórica nos territórios onde estão inseridas e mantém uma relação de confiança para com as famílias agricultoras, o que aumenta o engajamento delas na pesquisa e contribui para que os dados coletados sejam precisos e representativos da realidade local. Kokaib Saloj, agricultor e técnico de campo da Asociación Vivamos Mejor, da Guatemala, conta que “a maior parte das famílias participantes do projeto já tinha participado de formações promovidas pela Associação. Por isso tem plena confiança em topar participar, pois sabem que as informações serão utilizadas em benefício deles”.
A Vivamos Mejor passou a integrar o projeto em 2023 e em abril deste ano realizou a primeira rodada de aplicação dos questionários qualitativos. Uma estratégia adotada no país foi a aplicação do questionário nos idiomas Kaqchikel e K’iche’, por serem a primeira língua de algumas das famílias participantes que possuem origem Maya.
Outra organização que também foi incluída no projeto no ano passado, foi a Corporación Buen Ambiente (Corambiente), da Colômbia. Por lá, a estratégia foi envolver os jovens agricultores e filhos de agricultores. Eles atuam como promotores e promotoras tecnológicas do projeto, auxiliando as famílias com o registro de informações no aplicativo LiteFarm e com a aplicação dos questionários qualitativos.
A escolha de envolver a juventude partiu de uma preocupação com a crescente “descampesinización”, ou êxodo rural, em especial dos mais jovens. “Nossa aposta tem sido ter várias iniciativas com eles [jovens] que nos permitam fazê-los apaixonar-se pelo seu território e fazê-los acreditar na esperança de que há futuro em seus territórios, seus campos e em seus lares. E que, de alguma forma, as dificuldades que seus pais sofrem em decorrência do abandono estatal, dos maus preços que recebem pelos alimentos que produzem, ou as dificuldades que têm em ir à cidade para comercializar, que eles também possam perceber essas dificuldades como oportunidades que, com sua inteligência e também com acesso à tecnologia, podem oferecer às suas famílias e a si próprios possibilidades reais de melhores condições de vida”, explica Ricardo Eslava, da equipe diretiva da organização.
Desafios e oportunidades para a transição agroecológica
A rodada de entrevistas iniciada em março de 2024, que será finalizada em maio, dará subsídio para o terceiro relatório do projeto. A cada relatório, novos ajustes são feitos na metodologia da pesquisa-ação e na apresentação dos dados. Com isso espera-se obter um diagnóstico da produção agroecológica, mas sobretudo co-desenvolver, junto de agricultores, movimentos sociais e pesquisadores, “métodos para monitorar, avaliar e verificar as contribuições dos agricultores agroecológicos para a conservação da biodiversidade, adaptação e mitigação das mudanças climáticas e soberania alimentar e bem-estar para suas famílias e comunidades”, conforme explica a pesquisadora da Universidade de British Columbia, Hannah Wittman.
Além das organizações mencionadas, também compõem o Comitê Gestor do projeto o Movimiento de Economía Social y Solidaria del Ecuador, e as organizações mexicanas, Tijtoca Nemiliztli, A.C. e Centro Campesino, A.C.. Este projeto conta com o apoio da Fundação Interamericana (IAF).